Construindo Pequenos Autores — Projeto: Da Oralidade à Escrita — Construindo Pequenos Autores
Como ajudar os alunos a sair da dificuldade de escrever frases soltas e avançar para a produção de textos com sentido, organização e autoria?
Essa é uma pergunta muito presente na rotina dos professores dos anos iniciais.
É comum encontrarmos alunos que sabem escrever palavras e até produzem algumas frases, mas, quando recebem a proposta de escrever um texto, não sabem por onde começar.
Alguns escrevem apenas duas ou três linhas. Outros apresentam dificuldade para organizar os acontecimentos, repetem muitas vezes as mesmas palavras, esquecem a pontuação ou escrevem todas as ideias em um único bloco.
E então surge mais uma pergunta:
Como ensinar uma criança a escrever um texto se ainda estamos tentando ajudá-la a organizar aquilo que ela deseja dizer?
A resposta está em compreender que a produção textual é um processo.
Antes de escrever, a criança precisa ter o que dizer. Precisa aprender a organizar suas ideias, ampliar seu repertório de palavras, compreender para quem escreve e qual é a finalidade do texto. Precisa também aprender que escrever envolve planejamento, escrita, revisão e reescrita.
Por isso, o projeto “Da Oralidade à Escrita: Construindo Pequenos Autores” propõe um percurso progressivo de oito etapas, levando o estudante da oralidade à produção textual autônoma.
A proposta pode ser desenvolvida com turmas dos anos iniciais do Ensino Fundamental, especialmente com estudantes que apresentam dificuldades na organização das ideias, construção de frases, pontuação, paragrafação e desenvolvimento da autonomia na escrita.
Projeto: Da Oralidade à Escrita — Construindo Pequenos Autores
A ideia central do projeto
A proposta parte de um princípio simples: Ninguém começa a escrever textos com autonomia de uma hora para outra.
A criança precisa percorrer um caminho.
Primeiro, ela aprende a falar e organizar suas ideias. Depois, começa a transformar essas ideias em frases. Aprende a relacionar frases para construir pequenos textos. Observa o professor escrever, participa de produções coletivas, experimenta escrever com apoio e, gradualmente, aprende a revisar e aprimorar aquilo que produziu.
Por fim, chega à produção autônoma.
Podemos representar esse percurso assim:
Essa progressão permite que o professor reduza gradualmente os apoios oferecidos, enquanto o estudante conquista maior autonomia.
Justificativa
A produção textual constitui uma importante competência para o desenvolvimento escolar, acadêmico e social dos estudantes.
“Alfabetizar e letrar são duas ações distintas, mas não inseparáveis; o ideal seria alfabetizar letrando.” (SOARES, 2020, p. 27).
Entretanto, muitos alunos dos anos iniciais apresentam dificuldades para organizar ideias, elaborar frases completas, estabelecer uma sequência lógica de acontecimentos e utilizar recursos básicos de organização textual “o aluno de língua materna precisa aprender a agir em diversas situações de interação social, especialmente aquelas em que a interação se dá por intermédio do texto escrito.” (MOTTA-ROTH, 2006, p. 502).
Entre as dificuldades mais frequentes estão:
* produção de textos muito curtos;
* dificuldade para iniciar uma história;
* ausência de sequência lógica;
* repetição excessiva de palavras;
* uso inadequado da pontuação;
* ausência de letras maiúsculas;
* dificuldade para organizar parágrafos;
* pouca utilização de conectivos;
* dificuldade para revisar o próprio texto;
* dependência constante do professor durante a escrita.
Essas dificuldades mostram que não basta simplesmente solicitar ao aluno que “escreva um texto”.
É necessário ensinar como organizar o pensamento, planejar a escrita, construir o texto, revisar e reescrever.
“É no uso da leitura e da escrita em situações reais que as crianças compreendem a função social da linguagem escrita.” (SOARES, 2017, p. 219).
O projeto “Da Oralidade à Escrita: Construindo Pequenos Autores” propõe justamente esse percurso.
A criança começa falando, narrando, contando e organizando acontecimentos. Depois, passa gradualmente para a escrita, com diferentes níveis de apoio e mediação, “participar de uma ‘atividade’ e se engajar na ‘interação’ com o mundo são componentes centrais no desenvolvimento das habilidades de leitura e de redação.” (MOTTA-ROTH, 2006, p. 502).
Assim, a produção textual é compreendida como um processo de construção progressiva da autoria,“a escrita, desse modo, é entendida como uma ação direcionada para o outro e para uma finalidade específica.” (ANGELO; MENEGASSI, 2016, p. 477).
Público-alvo
O projeto pode ser desenvolvido com estudantes dos anos iniciais do Ensino Fundamental, especialmente: 2º, 3º,4º e 5º ano.
“Após o mecanismo das correspondências grafo-fonéticas ser adquirido, a instrução sobre a escrita passa a incidir sobre o desenvolvimento de competências mais avançadas, como produzir frases complexas, planejar a escrita e escrever com clareza e concisão.” (SANTOS; HAGE, 2015, p. 351).
Pode ser utilizado tanto com a turma toda quanto em propostas de intervenção pedagógica com estudantes que apresentam dificuldades específicas na produção textual.
As atividades podem ser adaptadas conforme o nível de desenvolvimento da turma.“O domínio da escrita desenvolve-se progressivamente, em um processo contínuo de construção e reconstrução de conhecimentos.” (SOARES, 2020, p. 41)
Objetivo geral
Desenvolver progressivamente as competências de produção textual dos estudantes, favorecendo a organização das ideias, a construção de frases e textos, o uso adequado de recursos linguísticos e a capacidade de planejar, revisar e reescrever suas produções, promovendo o desenvolvimento da autoria e da autonomia na escrita.
Objetivos específicos
Ao longo do projeto, pretende-se:
desenvolver a capacidade de organizar ideias oralmente;
estimular a construção de frases completas e significativas;
ampliar o vocabulário dos estudantes;
desenvolver a sequência lógica dos acontecimentos;
produzir textos coletivos e individuais;
compreender a função da pontuação;
utilizar adequadamente letras maiúsculas;
ampliar o uso de conectivos e marcadores temporais;
compreender a organização dos parágrafos;
desenvolver estratégias de planejamento textual;
aprender a revisar e reescrever textos;
produzir textos com maior clareza e organização;
desenvolver progressivamente a autonomia;
fortalecer a confiança dos estudantes como escritores.
As 8 etapas para formar pequenos autores
Clique e baixe a atividade da etapa 1 em PDF
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“O ato de escrever pressupõe ter o que dizer, razões para dizer, constituir-se enquanto sujeito do dizer e dispor dos mecanismos e estratégias desse dizer.” (SANTOS; HAGE, 2015, p. 351).
A progressão do projeto
Sugestão de organização em 8 semanas
Planejamento geral do projeto
Data de início do projeto: / /
Data prevista para conclusão: / /
Turma: ___________________________________________
Professor(a): _____________________________________
Ano escolar: ______________________________________
Importante: a organização em oito semanas é uma sugestão. O professor pode ampliar ou reduzir o tempo de cada etapa de acordo com as necessidades da turma.
Resultados esperados
Ao final do projeto, espera-se que os estudantes avancem na capacidade de:
* organizar ideias antes de escrever;
* produzir frases completas;
* construir pequenos textos;
* estabelecer sequência lógica;
* utilizar conectivos e marcadores temporais;
* empregar letras maiúsculas e pontuação;
* compreender a organização dos parágrafos;
* planejar suas produções;
* revisar e reescrever textos;
* escrever com maior clareza;
* produzir textos com maior autonomia;
* reconhecer-se como autor.
Como avaliar?
A avaliação deverá acontecer durante todo o percurso do projeto, de forma contínua, processual e formativa. Mais importante do que observar apenas o texto final é acompanhar o caminho percorrido pelo estudante, identificando seus avanços, dificuldades e necessidades ao longo de cada etapa.
Nesse processo, as rubricas avaliativas serão utilizadas como instrumentos para acompanhar, de maneira clara e sistemática, o desenvolvimento das habilidades de produção textual. A partir de critérios previamente definidos, o professor poderá observar aspectos como a organização das ideias, a construção de frases, a sequência lógica, o uso da pontuação, a paragrafação, os conectivos, a revisão textual e a autonomia na escrita.
A comparação entre a produção inicial e a produção final permitirá visualizar os avanços individuais de cada estudante e identificar quais habilidades já foram consolidadas e quais ainda precisam ser trabalhadas. Dessa forma, a avaliação não se limita ao resultado final, mas valoriza todo o processo de aprendizagem, orientando novas intervenções pedagógicas e favorecendo o desenvolvimento progressivo da autonomia e da autoria na escrita.
Clique e baixe a rubrica avaliativa em PDF
Fundamentação pedagógica
O projeto está fundamentado em uma concepção de produção textual como processo gradual e significativo, articulando oralidade, leitura, escrita, planejamento, revisão e reescrita.
A proposta dialoga com as contribuições de Magda Soares, especialmente no que se refere à articulação entre alfabetização e letramento “Letramento é o estado ou condição de quem não apenas sabe ler e escrever, mas cultiva e exerce as práticas sociais que usam a escrita.” (SOARES, 2004, p. 47).
Com Désirée Motta-Roth, na compreensão da linguagem em situações sociais e nos gêneros textuais; e com os estudos de Angelo e Menegassi e Santos e Hage, que contribuem para a compreensão da produção escrita como uma atividade que envolve planejamento, construção, revisão e aprimoramento.“Muito mais do que dominar técnicas ou regras gramaticais, saber escrever é engendrar uma proposta de sentido/leitura.” (SANTOS; HAGE, 2015, p. 351).
A proposta também se articula às orientações da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) para o desenvolvimento das práticas de linguagem nos anos iniciais do Ensino Fundamental.
Conclusão - o protagonismo da criança no processo de aprendizagem
Por isso, o caminho da produção textual precisa ser construído gradualmente, respeitando o tempo, os conhecimentos prévios e as possibilidades de cada criança.
O projeto “Da Oralidade à Escrita: Construindo Pequenos Autores” propõe justamente esse percurso, no qual a criança não ocupa apenas o lugar de quem recebe orientações, mas assume progressivamente o papel de protagonista do próprio processo de aprendizagem.
Ao falar, contar, imaginar, criar, escrever, revisar e compartilhar suas produções, a criança participa ativamente da construção do conhecimento. Ela aprende que suas ideias têm valor, que pode fazer escolhas e que sua escrita possui uma finalidade e um interlocutor.
O professor, nesse processo, atua como mediador e parceiro da aprendizagem, oferecendo os apoios necessários para que o estudante avance, mas retirando-os gradualmente à medida que a autonomia se desenvolve. O objetivo não é escrever pela criança, mas criar condições para que ela descubra, pouco a pouco, que é capaz de pensar, criar, escrever e comunicar aquilo que pensa.
Porque antes de formar grandes escritores, precisamos permitir que as crianças descubram que elas também têm algo a dizer e que suas palavras merecem ser ouvidas, lidas e valorizadas.
Quando a criança percebe que sua voz é importante e que aquilo que produz tem um leitor e uma função social, a escrita deixa de ser apenas uma tarefa escolar. Ela passa a ser uma forma de expressar pensamentos, sentimentos, experiências e ideias, fortalecendo o sentimento de autoria e pertencimento.
Assim, construir pequenos autores significa também dar voz às crianças, reconhecer seus saberes e criar oportunidades para que participem ativamente da própria aprendizagem. Afinal, a autonomia não surge de uma hora para outra: ela é construída quando oferecemos apoio, confiança, espaço para experimentar e, principalmente, a oportunidade de a criança perceber que ela é capaz de aprender e de produzir algo que tenha significado para si e para os outros.
Clique e baixe as atividade do projeto em PDF
Referências
ANGELO, Cristiane Malinoski Pianaro; MENEGASSI, Renilson José. A produção escrita e o trabalho docente na sala de apoio. Alfa: Revista de Linguística, São Paulo, v. 60, n. 3, p. 475-506, 2016.
BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília: MEC, 2017.
MOTTA-ROTH, Désirée. O ensino de produção textual com base em atividades sociais e gêneros textuais. Linguagem em (Dis)curso, Tubarão, v. 6, n. 3, p. 495-517, set./dez. 2006.
SANTOS, Maria Aparecida Gonçalves dos; HAGE, Simone Rocha de Vasconcellos. Produção textual de crianças sem dificuldades de aprendizagem. CoDAS, São Paulo, v. 27, n. 4, p. 350-358, 2015.
SOARES, Magda. Alfabetização e letramento. 7. ed. São Paulo: Contexto, 2017.
SOARES, Magda. Alfabetização: a questão dos métodos. São Paulo: Contexto, 2020.
SOARES, Magda. Letramento: um tema em três gêneros. 3. ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2004.


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